{"id":1185,"date":"2015-07-04T02:07:35","date_gmt":"2015-07-04T02:07:35","guid":{"rendered":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?page_id=1185"},"modified":"2016-06-17T20:55:55","modified_gmt":"2016-06-17T20:55:55","slug":"deportada-para-chipre","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/miriam-nekrycz\/deportada-para-chipre\/","title":{"rendered":"Miriam Nekrycz &#8211; Deportada para Chipre"},"content":{"rendered":"<p>No campo de Aschau, os grupos de jovens refugiados estavam sempre com a expectativa de ir para algum outro lugar, quer fosse Eretz Israel, ou para outros pa\u00edses fora da Europa onde ainda tinham parentes. Ir para Eretz Israel era dif\u00edcil \u2013 a pessoa tinha que se cadastrar na Ali\u00e1 (imigra\u00e7\u00e3o para Israel), mas certificados liberados pelos brit\u00e2nicos eram escassos. A outra alternativa era a Ali\u00e1 B, isto \u00e9, a imigra\u00e7\u00e3o clandestina, a qual era muito arriscada pois os brit\u00e2nicos interceptavam as pequenas embarca\u00e7\u00f5es ilegais e enviavam os maapilim (imigrantes ilegais) para a ilha de Chipre. Crian\u00e7as dificilmente tinham permiss\u00e3o para ir para Eretz Israel dessa forma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_80\" aria-describedby=\"caption-attachment-80\" style=\"width: 795px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=310\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-80 size-full\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Exodus-ship.-Oil-painting..png\" alt=\"Exodus ship. (Oil painting).\" width=\"795\" height=\"612\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Exodus-ship.-Oil-painting..png 795w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Exodus-ship.-Oil-painting.-300x231.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-80\" class=\"wp-caption-text\">O navio Exodus, 1947. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois que Miriam recebeu a carta de seus tios, queria ir para Eretz Israel o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Ent\u00e3o foi at\u00e9 o escrit\u00f3rio do Sr. Naum Goldmann, presidente do Conselho Judaico Mundial em Munique, e cadastrou-se na Ali\u00e1 B juntamente com os outros jovens refugiados de seu grupo.<\/p>\n<p>Quando o dia de partir finalmente chegou, tomaram um trem para a Fran\u00e7a e viajaram at\u00e9 Marselha, passando algum tempo em uma casa de frente para o mar. Como seus monitores haviam ficado no campo, eles se juntaram ao grupo \u201cBnei Akiva\u201d, que se reunia todos os dias para cantar louvores ao Todo-Poderoso e guardava o s\u00e1bado. Miriam n\u00e3o tinha sido criada como ortodoxa, mas sentia que a observ\u00e2ncia dos rituais religiosos judaicos era algo natural. Ela decidiu jejuar duas vezes por semana para que sua amiga Tereza se recuperasse e pudesse tamb\u00e9m chegar a salvo em Israel.<\/p>\n<p>Dois meses se passaram e a vez de o grupo embarcar n\u00e3o chegava. Mudaram-se para outra casa nas montanhas, ainda perto de Marselha. Veio o Purim, e nem sinal de embarcarem. Mas o dia t\u00e3o esperado chegou um dia antes da <em>Pessach <\/em>(P\u00e1scoa Judaica), e eles receberam um pacotinho de <em>matzot<\/em> e uma garrafa, para ser cheia de \u00e1gua durante a viagem. Disseram a eles, por\u00e9m, que as garrafas poderiam ser usadas como meio de defesa contra os brit\u00e2nicos, caso necess\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>Desceram a montanha \u00e0 noite, cada um levando seu pacote de<em> matzot<\/em> e sua garrafa. Como era o dia antes da <em>Pessach<\/em>, a partida da Europa assemelhava-se \u00e0 partida do Egito. Assim como seus antepassados, estavam deixando para tr\u00e1s uma terra de sofrimento e rumando para a liberdade em Eretz Israel por caminhos tortuosos. Aconteceu como no Salmo 126: \u201c\u201dQuando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltavam a Si\u00e3o, est\u00e1vamos como que sonhando\u201d. Nem lhes passava pela cabe\u00e7a as dificuldades ainda esperando por eles.<\/p>\n<p>O navio era velho e fr\u00e1gil, com pouco espa\u00e7o para acomodar tantas pessoas. Quando embarcaram, outros <em>maapilim<\/em> j\u00e1 tinham ocupado os beliches dispon\u00edveis nos tr\u00eas pavimentos do navio, de modo que Miriam e seus amigos tiveram que ir para o por\u00e3o mais baixo. O por\u00e3o estava t\u00e3o cheio que quando ela subia na cama parecia que estava entrando em uma gaveta. O calor e o odor eram insuport\u00e1veis, mas ningu\u00e9m reclamava. Eles estavam indo para Eretz Israel!<\/p>\n<p>Os navios usados na Ali\u00e1 B tinham sido adquiridos ilegalmente, com grandes sacrif\u00edcios. Muitos deles estavam velhos e danificados, tendo sido reparados \u00e0s pressas e adaptados para acomodar um n\u00famero bem maior de pessoas do que sua capacidade original permitia. A tripula\u00e7\u00e3o era composta de aventureiros, muitos deles ganhando muito dinheiro com as viagens, mas tamb\u00e9m havia aqueles que faziam o trabalho por idealismo, apresentando-se voluntariamente para colaborar com a causa.<\/p>\n<p>O navio em que viajavam havia sido batizado como \u201cTheodor Herzl\u201d e levava mais de 2.500 pessoas. Para aqueles que estavam no por\u00e3o, as circunst\u00e2ncias eram especialmente dif\u00edceis, pois o navio come\u00e7ou a oscilar assim que deixou o porto. Como muitas das mo\u00e7as ficaram enjoadas, tinham que se revezar para subir e respirar ar puro, pois por raz\u00f5es de seguran\u00e7a n\u00e3o podiam ir todas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Miriam n\u00e3o comeu a comida que foi distribu\u00edda no navio porque era <em>Pessach<\/em> e a comida n\u00e3o era <em>casher<\/em> suficiente. Al\u00e9m disso, passou o tempo todo muito enjoada, sem for\u00e7as nem para levantar da cama. Um de seus amigos lhe trazia leite e a ajudava a subir os degraus escorregadios para que pudesse tomar um pouco de ar fresco.<\/p>\n<p>Ainda assim, era sustentada pelo pensamento de que o navio n\u00e3o seria descoberto pelos avi\u00f5es brit\u00e2nicos. Era mais seguro durante a noite, assim eles podiam se reunir no conv\u00e9s, ocupando todo o espa\u00e7o dispon\u00edvel, como se fossem uma \u00e1rvore apinhada de p\u00e1ssaros. O mar estava calmo o tempo todo, contrariamente ao que se esperava quando se aproximasse de Creta.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, certo dia avi\u00f5es sobrevoaram o navio e todos receberam ordens para permanecer nos por\u00f5es. Como somente a tripula\u00e7\u00e3o havia permanecido no conv\u00e9s e o navio estava camuflado, pensaram que n\u00e3o haviam sido descobertos, pois os avi\u00f5es n\u00e3o voltaram. Mas \u00e0 noite, dois <em>destr\u00f3ieres<\/em> brit\u00e2nicos se aproximaram e abalroaram o pequeno navio de prop\u00f3sito, danificando-o seriamente. Como o choque foi muito forte, todos os <em>maapilim<\/em> correram para o conv\u00e9s.<\/p>\n<p>Os oficiais brit\u00e2nicos gritaram em alto-falantes: todos deveriam permanecer calmos e seguir suas ordens. Mas algu\u00e9m come\u00e7ou a cantar o Hativka, e todos os outros seguiram em coro, louvando sua p\u00e1tria e protestando aqueles que os impediam de alcan\u00e7\u00e1-la. Quando o hino acabou, em um gesto de indigna\u00e7\u00e3o, uma chuva de garrafas caiu sobre o navio inimigo. Os brit\u00e2nicos imediatamente come\u00e7aram a atirar, matando tr\u00eas pessoas e ferindo muitas outras.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos vieram a bordo, prenderam os tripulantes e disseram a todos para voltar para seus lugares. Quando Miriam voltou ao por\u00e3o, estava cheio de \u00e1gua. A oscila\u00e7\u00e3o do navio produzia ondas dentro do por\u00e3o, e parecia que ele iria afundar. Como o n\u00edvel de \u00e1gua n\u00e3o parava de subir, os brit\u00e2nicos permitiram que eles voltassem ao conv\u00e9s.<\/p>\n<p>O navio foi atracado no porto de Haifa, no entanto, os passageiros n\u00e3o tiveram permiss\u00e3o de desembarcar. Enquanto Miriam olhava para as luzes de Haifa, p\u00f4de via uma multid\u00e3o de judeus protestando, gritando e cantando. Mas, apesar da grande frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter permiss\u00e3o para pisar o solo sagrado, nada foi t\u00e3o doloroso quanto ver os tr\u00eas <em>maapilim<\/em> mortos sendo retirados do navio. Para Miriam, era como derramar novas l\u00e1grimas, sob novos opressores. No dia seguinte, todos foram transferidos para um navio-pris\u00e3o que parecia uma gaiola, para que n\u00e3o pudesse pular no mar.<\/p>\n<p>De abril de 1945 a janeiro de 1948, 58 dos 63 navios da Ali\u00e1 B foram interceptados pela marinha brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>Era abril de 1947 e havia mais de 10.000 <em>maapilim<\/em> detidos em Chipre, esperando os certificados brit\u00e2nicos. Quando o grupo de Miriam chegou, alguns dos imigrantes que haviam estado em campos de concentra\u00e7\u00e3o entraram em p\u00e2nico quando viram as cercas, guardas e torres do campo de Chipre.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es em Chipe eram dif\u00edceis, por\u00e9m, ainda assim seu grupo de amigos guardava o s\u00e1bado, estudava hebraico, lia a Tor\u00e1, e ajudava a cozinhar a comida <em>casher<\/em>. O campo recebia livros das organiza\u00e7\u00f5es judaicas e de vez em quando vinha um sionista visit\u00e1-los e trazer not\u00edcias de Eretz Israel.<\/p>\n<p>Embora eles n\u00e3o tivessem revistas, jornais ou r\u00e1dios, rapidamente ficaram sabendo da odisseia do navio Exodus. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, era o dia 9 de Av, a mesma data em que os dois templos de Jerusal\u00e9m haviam sido destru\u00eddos. Naquela noite, no Barrac\u00e3o 65 do campo de Chipre, os jovens acenderam tochas, sentaram-se no ch\u00e3o e repetiram as ora\u00e7\u00f5es das Lamenta\u00e7\u00f5es de Jeremias, jurando que jamais se esqueceriam de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Depois do incidente com o navio Exodus, os brit\u00e2nicos emitiram 500 permiss\u00f5es de imigra\u00e7\u00e3o para internos do campo de Chipre abaixo de 15 anos. Miriam e os outros que haviam sido escolhidos para a viagem receberam do representante da Ag\u00eancia Judaica uma muda de sabra, para que pudessem replant\u00e1-la em <em>Erertz <\/em>Israel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continuar lendo: <a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=404\">Finalmente em Israel.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No campo de Aschau, os grupos de jovens refugiados estavam sempre com a expectativa de ir para algum outro lugar, quer fosse Eretz Israel, ou para outros pa\u00edses fora da Europa onde ainda tinham parentes. Ir para Eretz Israel era dif\u00edcil \u2013 a pessoa tinha que se cadastrar na Ali\u00e1 (imigra\u00e7\u00e3o para Israel), mas certificados &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"parent":153,"menu_order":5,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1185","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1185"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1448,"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1185\/revisions\/1448"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/153"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}