{"id":1231,"date":"2015-07-21T01:39:03","date_gmt":"2015-07-21T01:39:03","guid":{"rendered":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?page_id=1231"},"modified":"2015-08-29T22:00:27","modified_gmt":"2015-08-29T22:00:27","slug":"campos-de-trabalho-e-libertacao","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/campos-de-trabalho-e-libertacao\/","title":{"rendered":"Campos de Trabalho e Liberta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ben Abraham foi levado para Braunschweig por\u00e9m ficou apenas um dia naquele campo, sendo transferido em seguida para Wochelde, que ficava a cerca de 20 quil\u00f4metros dali.<\/p>\n<figure id=\"attachment_688\" aria-describedby=\"caption-attachment-688\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=694\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-688\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/05\/uniform-with-color-codes-227x300.jpg\" alt=\"uniform with color codes\" width=\"300\" height=\"397\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/05\/uniform-with-color-codes-227x300.jpg 227w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/05\/uniform-with-color-codes.jpg 604w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-688\" class=\"wp-caption-text\">Uniforme com emblemas codificados por cor. (Giz de cera).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Naquele campo, ele e os demais prisioneiros foram identificados por n\u00fameros e por um s\u00edmbolo costurado em seus uniformes: um tri\u00e2ngulo amarelo para os judeus; um tri\u00e2ngulo vermelho para prisioneiros pol\u00edticos; um tri\u00e2ngulo rosa para os homossexuais; um tri\u00e2ngulo preto para criminosos; e um tri\u00e2ngulo roxo para os religiosos e para aqueles que haviam se recusado a participar da guerra.<\/p>\n<p>No dia seguinte ap\u00f3s chegar a Wochelde, Ben Abraham come\u00e7ou a trabalhar em uma f\u00e1brica de pe\u00e7as para caminh\u00e3o chamada \u201cBussing\u201d. Naquela f\u00e1brica havia estrangeiros que tamb\u00e9m eram for\u00e7ados a trabalhar, mas que, aparentemente, n\u00e3o seriam mortos depois. Ele foi colocado no encargo da manuten\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas da f\u00e1brica, com tr\u00eas outros mec\u00e2nicos. A comida que recebiam na f\u00e1brica era relativamente boa, mas ele logo come\u00e7ou a pensar em formas de conseguir mais comida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, pouco tempo depois a situa\u00e7\u00e3o mudou: os suprimentos da f\u00e1brica come\u00e7aram a ser administrados pela SS, de modo que a ra\u00e7\u00e3o deles diminuiu. Com a chegada do inverno, n\u00e3o havia mais frutas e o campo estava coberto de neve. Ben Abraham continuou com suas estrat\u00e9gias para conseguir mais comida, tornando-se conhecido por sua habilidade como mec\u00e2nico e ganhando a simpatia dos gerentes estrangeiros, os quais, de vez em quando, traziam-lhe algo para comer.<\/p>\n<p>Um de seus colegas de cela pediu sua ajuda para encontrar um jeito de entrar na despensa da SS, para pegar comida. Eles conseguiram faz\u00ea-lo sem problemas nas primeiras quatro vezes, mas na quinta vez, foram pegos. Ele acabou caindo dentro de um barril de geleia e por causa disso foi imposs\u00edvel esconder do oficial da SS o que havia feito. Ele e seu companheiro esperaram alguns dias para serem executados, mas aparentemente sua habilidade como mec\u00e2nico era mais importante do que o \u201ccrime\u201d e, por isso, ele n\u00e3o foi morto, mas levou 56 pauladas como puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois desse incidente, ele era seguido e monitorado o tempo todo dentro da f\u00e1brica, e assim para conseguir mais comida dos estrangeiros e sobreviver, ele teve a ideia de fazer isqueiros e vend\u00ea-los para os prisioneiros alem\u00e3es em troca de comida.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1945, chegaram novas ordens: os prisioneiros deveriam ser evacuados porque os americanos estavam avan\u00e7ando, enquanto os alem\u00e3es retiravam-se, em p\u00e2nico. Em 21 de mar\u00e7o, ele foi deportado juntamente com seu grupo para uma f\u00e1brica em Braunschweig, onde ele n\u00e3o p\u00f4de encontrar nenhuma forma de conseguir comida extra. Ali disseram a eles que seriam transferidos para uma f\u00e1brica de armas em Watenstadt. Marcharam para a cidade de Braunschweig e a encontraram completamente arruinada por bombas incendi\u00e1rias. Aqueles que n\u00e3o conseguiram continuar marchando foram executados pelos SS ucranianos que vinham na retaguarda.<\/p>\n<p>Ele estava para ser enviado a Hildesheim logo depois de chegarem a Watenstadt, pois naquele local estavam localizadas as f\u00e1bricas de muni\u00e7\u00e3o. No entanto, Ben Abraham n\u00e3o se apresentou como mec\u00e2nico e foi deixado para tr\u00e1s, permanecendo na famosa \u201cHerman G\u00f6ring W\u00e4rke\u201d, o maior complexo fabril de armamentos pesados da Alemanha. Foi, ent\u00e3o, transferido para um bloco onde todos os prisioneiros serviam como trabalhadores internos da f\u00e1brica, de modo que a comida e as condi\u00e7\u00f5es de higiene eram melhores do que nos outros blocos. De qualquer forma, mesmo assim ele se arrependeu de n\u00e3o ter ido para Hildesheim, pensando ter sido infeliz a decis\u00e3o de permanecer onde estava.<\/p>\n<figure id=\"attachment_686\" aria-describedby=\"caption-attachment-686\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=696\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-686\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/05\/Aerial_Evidence__4f581486873bb-300x245.jpg\" alt=\"Aerial_Evidence__4f581486873bb\" width=\"450\" height=\"367\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/05\/Aerial_Evidence__4f581486873bb-300x245.jpg 300w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/05\/Aerial_Evidence__4f581486873bb.jpg 799w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-686\" class=\"wp-caption-text\">Evid\u00eancia a\u00e9rea: Por que Auschwitz n\u00e3o foi bombardeada? (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Certo dia, a \u201cHerman G\u00f6ring W\u00e4rke\u201d foi bombardeada. Diferentemente dos SS, que entrarem em p\u00e2nico, ele e seus companheiros prisioneiros n\u00e3o sentiram medo e ficaram na janela espiando. Ben Abraham viu quando metade do bloco 3, onde ficavam alojados os Blocaltester e os Kapos, foi destru\u00edda. Ele ent\u00e3o pegou um prato de lata e correu para l\u00e1. De repente, um avi\u00e3o com barulho ensurdecedor passou por cima dele em voo rasante, sumindo em seguida. \u00c9 poss\u00edvel que n\u00e3o tenha atirado porque ele estava usando o uniforme de roupa listrada, e talvez isso tenha salvo o campo do bombardeio total. Das f\u00e1bricas nada ficou, mas nenhuma outra bomba caiu sobre os alojamentos dos prisioneiros.<\/p>\n<p>Pouco depois, chegou a not\u00edcia de que os norte-americanos estavam avan\u00e7ando e, a qualquer momento, os prisioneiros ou seriam liquidados, ou seriam transferidos para outro campo. De madrugada, \u00e0s 4 horas, SS despertaram os homens de seu bloco aos gritos e obrigaram-nos a transportar mantimentos e roupas para os trens que os levariam para a outra regi\u00e3o da Alemanha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s carregarem os trens, ao voltarem a p\u00e9 para o campo, ele e seu grupo encontraram uma enorme massa de prisioneiros que se encaminhava para os trens, sob os gritos apressados dos SS. Tratava-se de evacuar o campo rapidamente, pois os norte-americanos j\u00e1 estavam em Braunschweig. Ele e seu grupo acabou de misturando com os demais e eles embarcaram nos trens.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a viagem de trem em vag\u00f5es abertos rumo a Neugame, lugar perto de Hamburgo. Felizmente chegaram l\u00e1 com duas horas de atraso, e a essa altura os SS j\u00e1 tinham afogados todos os prisioneiros, segundo os ucranianos.<\/p>\n<p>Chegaram a Ravensbruck depois de v\u00e1rios dias sem comer ou beber, viajando nos vag\u00f5es abertos ao frio, ao sol e \u00e0 chuva. Dos 70 prisioneiros que haviam sido colocados em seu vag\u00e3o, somente 27 ainda estavam vivos.<\/p>\n<p>O campo de Ravensbruck estava lotado com pessoas vindas de v\u00e1rios outros campos. Ali tamb\u00e9m ele se achou em apuros por tentar conseguir comida extra, mas foi salvo pelo Blockalstester de seu bloco \u2013 um alem\u00e3o de tri\u00e2ngulo vermelho que simplesmente trocou sua \u201cmarca de c\u00e3o\u201d, ou seja, a plaquinha num\u00e9rica que todos os prisioneiros levavam no pesco\u00e7o. Usando um novo n\u00famero, ele n\u00e3o seria identificado. Como todos os prisioneiros do campo estavam muito debilitados, n\u00e3o havia a menor chance de ele ser reconhecido.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, um SS veio fazer a revista e chamou por seu n\u00famero antigo. Como combinado com o Blockalstester, ele n\u00e3o se apresentou. O Blockalstester disse o SS que o tinha matado por ter roubado comida, e apontou para um dos cad\u00e1veres que estavam amontoados nas proximidades.<\/p>\n<p>Um dia chegou a not\u00edcia de que a Cruz Vermelha iria transferir os prisioneiros para a Su\u00e9cia, e que eles receberiam pacotes de mantimentos. Ben Abraham e seus companheiros n\u00e3o acreditaram em nada; pensaram que era somente mais uma piada dos alem\u00e3es, mas, de fato, receberam os mantimentos. No dia seguinte, foram colocados em trens que supostamente iriam para a Su\u00e9cia, no que tamb\u00e9m n\u00e3o acreditaram. Logo depois, praticamente todo o grupo que havia comido daqueles mantimentos come\u00e7ou a ter sintomas de forte disenteria.<\/p>\n<p>Depois de dois dias de viagem, os SS disseram que a pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o havia sido bombardeada, de modo que teriam que prosseguir a p\u00e9 at\u00e9 o campo mais pr\u00f3ximo, localizado perto de Ludwiglust. Os Kapos desse campo roubaram deles quase todos os mantimentos que haviam recebido.<\/p>\n<p>Em Ludwiglust, os prisioneiros foram colocados em barrac\u00f5es sem teto, com ch\u00e3o de areia e paredes sem reboco. Ali chegaram dois rapazes que tinham sido transferidos de Watenstadt para Hildesheim. Contaram que, dos 150 mec\u00e2nicos que haviam sido transportados para l\u00e1, somente eles haviam sobrevivido. Os demais haviam sido mortos durante a evacua\u00e7\u00e3o do campo, sendo que os ucranianos e lituanos recebiam dos alem\u00e3es um peda\u00e7o de p\u00e3o por cada prisioneiro judeu morto.<\/p>\n<p>Em 1\u00ba de maio \u2013 o dia em que Ben Abraham havia decidido que a Guerra iria acabar \u2013 os alem\u00e3es disseram a eles que seriam evacuados novamente, pois os americanos estavam avan\u00e7ando. Sofrendo de disenteria havia v\u00e1rios dias, ele n\u00e3o tinha mais for\u00e7as para se levantar e decidiu ficar ali mesmo. Mas um de seus companheiros ajudou-o a se levantar e caminhar at\u00e9 o vag\u00e3o, pois um dos Kapos, j\u00e1 usando o uniforme da SS oferecido \u00e0queles que se dispusessem a lutar pela Alemanha, disse a eles que os que ficassem seriam fuzilados.<\/p>\n<p>Ele e seu companheiro entraram em um vag\u00e3o abarrotado por 150 prisioneiros. Ao mesmo tempo, podiam ouvir a gritaria dos judeus de outros vag\u00f5es, que fugiam dos ucranianos que os matavam impiedosamente.<\/p>\n<p>Conseguiram um lugar perto da porta, ao lado de um SS gordo que depois desapareceu. Assim, tinham algum espa\u00e7o para respirar, diferentemente de metade dos prisioneiros do vag\u00e3o, os quais morreram sufocados naquela mesma noite, uns por cima dos outros.<\/p>\n<p>Num estado j\u00e1 let\u00e1rgico, sem for\u00e7as para se livrar dos cad\u00e1veres amontoados ao seu redor, Ben Abraham ouviu gritarem: \u201cOs tanques, os tanques!\u201d Num esfor\u00e7o tremendo conseguiu levantar-se e olhar para fora: aproximava-se uma coluna de tanques, ostentando estrelas brancas de cinco pontas. Pensava ele que eram tanques russos, pois n\u00e3o sabia que os norte-americanos tamb\u00e9m usavam a estrela como s\u00edmbolo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82\" aria-describedby=\"caption-attachment-82\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=303\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-82\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/Liberation-300x197.png\" alt=\"Liberation\" width=\"450\" height=\"296\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Liberation-300x197.png 300w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Liberation.png 901w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-82\" class=\"wp-caption-text\">A Liberta\u00e7\u00e3o. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto os tanques se aproximavam, os alem\u00e3es fugiam, os prisioneiros russos se abra\u00e7avam e os judeus choravam \u2013 choravam sem parar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continue Lendo: <a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=21\">Imigra\u00e7\u00e3o Clandestina<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ben Abraham foi levado para Braunschweig por\u00e9m ficou apenas um dia naquele campo, sendo transferido em seguida para Wochelde, que ficava a cerca de 20 quil\u00f4metros dali. 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