{"id":155,"date":"2015-04-01T02:30:35","date_gmt":"2015-04-01T02:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/benabraham.org\/en\/?page_id=155"},"modified":"2016-07-24T17:19:01","modified_gmt":"2016-07-24T17:19:01","slug":"a-guerra-chega-a-luck","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/miriam-nekrycz\/a-guerra-chega-a-luck\/","title":{"rendered":"Miriam Nekrycz &#8211; A Guerra Chega a Luck"},"content":{"rendered":"<p>Miriam Nekrycz registrou seu testemunho como sobrevivente do Holocausto em seu livro \u201cRelato de uma Vida\u201d, publicado no Brasil em 1995.<\/p>\n<p>O livro inicia-se com a viagem de Miriam e Ben Abraham para Pol\u00f4nia e Ucr\u00e2nia, depois da queda da cortina de ferro. Durante a viagem de trem de Vars\u00f3via a Kiev, ela podia lembrar-se dos nomes das cidades que, nos s\u00e9culos passados, fervilhavam de vida judaica.<\/p>\n<p>Na Pol\u00f4nia, o casal visitou Auschwitz, Treblinka e Majdanek. Em Auschwitz, Ben Abraham n\u00e3o p\u00f4de conter suas l\u00e1grimas ao chegar ao local onde foi separado de sua m\u00e3e. Na \u00e1rea onde ficava o campo de Treblinka, somente as pedras restavam para simbolizar as aldeias e povoados de onde os judeus foram trazidos diretamente para a morte. O campo de Majdanek era agora t\u00e3o pr\u00f3ximo ao centro de Lublin que podia ser visto da estrada, pois os nazistas n\u00e3o tiveram tempo de destru\u00ed-lo antes da chegada do ex\u00e9rcito vermelho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_459\" aria-describedby=\"caption-attachment-459\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=701\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-459\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/rabi-243x300.jpg\" alt=\"rabi\" width=\"300\" height=\"371\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/rabi-243x300.jpg 243w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/rabi.jpg 647w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-459\" class=\"wp-caption-text\">Rabino Shalom Yosef Elyashiv. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>A chegada a Luck d\u00e1 in\u00edcio ao relato sobre a inf\u00e2ncia de Miriam. A vida era boa para os judeus de Luck, nos anos 1930. Seus av\u00f3s paternos tinham um armaz\u00e9m de cereais; seu av\u00f4 passava a maior parte do tempo estudando a Tor\u00e1 enquanto seu pai \u2013 o filho mais velho \u2013 gerenciava a loja com a m\u00e3e. Dois de seus filhos haviam imigrado para Eretz Israel; uma das filhas tinha se casado e mudado para os Estados Unidos.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia da m\u00e3e de Miriam tamb\u00e9m era est\u00e1vel: a av\u00f3, vi\u00fava, tinha conseguido criar os sete filhos administrando uma loja de sapatos durante a Primeira Guerra Mundial. Um dos filhos tinha se mudado para o Brasil ap\u00f3s ter vivido alguns anos em Eretz Israel com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia toda celebrava o Shabbat em uma sinagoga no bairro de Wulka, onde moravam. Embora passasse a maior parte do tempo entre parentes e amigos judeus, Miriam frequentava uma escola municipal com crian\u00e7as cat\u00f3licas, onde os professores n\u00e3o discriminavam crian\u00e7as judaicas. Contudo, \u00e0s vezes ela ouvia crian\u00e7as polonesas gritando algo como \u201cJudeus para a Palestina\u201d. Ela n\u00e3o entendia o que essas palavras significavam.<\/p>\n<p>No inverno de 1938 para 1939, os pais de Miriam abriram uma nova loja de tecidos. Na mesma \u00e9poca, nasceram seus irm\u00e3ozinhos \u2013 um casal de g\u00eameos. Eram tempos felizes, apesar de algumas tribula\u00e7\u00f5es: um dia, a empregada simplesmente jogou \u00e1gua fervendo em um dos beb\u00eas, que sofreu queimaduras graves. Aparentemente, ela o fizera de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Um dia, a pequena Miriam ouviu os adultos discutindo sobre a invas\u00e3o da Pol\u00f4nia pela Alemanha nazista. Ent\u00e3o, de repente, a guerra come\u00e7ou para sua fam\u00edlia: a cidade foi bombardeada pelos alem\u00e3es, e assim seu pai enviou a fam\u00edlia para uma cidade menor, onde poderia estar mais segura. Dentro de mais alguns dias, chegaram as not\u00edcias sobre o pacto germano-sovi\u00e9tico: a Pol\u00f4nia seria dividida em duas e eles estavam do lado sovi\u00e9tico dos territ\u00f3rios ocupados.<\/p>\n<p>Voltaram ent\u00e3o para Luck, e a vida parecia seguir seu curso normal novamente. Enquanto isso, milhares de refugiados judeus cruzavam o Rio Bug para fugir da Alemanha ocupada pelos nazistas. A comunidade judaica de Luck recebeu muitos deles em suas casas, inclusive a fam\u00edlia de Miriam, que recebeu uma jovem chamada Hella. Ela havia fugido com sua irm\u00e3, mas elas tinham se perdido durante a viagem. Embora a fam\u00edlia de Miriam a tratasse como sua pr\u00f3pria filha, Hella chorava com frequ\u00eancia, por seus pais e por sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Logo os soldados e oficiais sovi\u00e9ticos chegaram a Luck e come\u00e7aram a impor suas regras sobre os territ\u00f3rios ocupados. Na escola, foram abolidas as aulas de religi\u00e3o, bem como as aulas de polon\u00eas: agora ucraniano e russo eram as l\u00ednguas que as crian\u00e7as deveriam aprender. A doutrina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as de acordo com valores patri\u00f3ticos tamb\u00e9m era muito forte: Stalin era apresentado como um pai amoroso, cujos gloriosos atos de coragem eram exaltados em m\u00fasicas e filmes a que as crian\u00e7as assistiam.<\/p>\n<p>Os pais de Miriam decidiram fechar a loja, a fim de evitar a perda das mercadorias. Como os soldados sovi\u00e9ticos queriam comprar tudo usando a velha moeda polonesa, que n\u00e3o valia mais nada, vender a mercadoria significava perd\u00ea-la, e era perigoso recusar-se a vend\u00ea-la.<\/p>\n<p>A escola judaica religiosa foi fechada e o pr\u00e9dio foi transformado no \u201cPal\u00e1cio dos Pioneiros\u201d. Os pioneiros eram crian\u00e7as e jovens que tinham jurado sempre estar prontos para servir a R\u00fassia. No \u201cpal\u00e1cio\u201d n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as judias ou n\u00e3o judias.<\/p>\n<p>Mas eram dias perigosos, principalmente para os ricos: a pol\u00edcia secreta sovi\u00e9tica invadia suas casas, confiscava seus bens, prendia os homens e os enviava para a Sib\u00e9ria. Uma dia, eles vieram \u00e0 casa de Miriam procurando por Hella, pois ela havia se cadastrado para voltar para a Pol\u00f4nia ocupada pelos alem\u00e3es. Os Russos tinham decidido prender todas as pessoas que haviam se cadastrado no programa de retorno e deport\u00e1-las para a Sib\u00e9ria. O pai de Miriam conseguiu trazer Hella de volta para casa, mas ela n\u00e3o ficou muito. Pouco tempo depois, os oficiais sovi\u00e9ticos voltaram, e ela foi colocada em um trem. Eles nunca mais a viram.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia mais manter a loja em funcionamento, o pai de Miriam arrumou um emprego em uma lanchonete. Ao mesmo tempo, os antigos oficiais poloneses, que antes eram ricos e arrogantes, n\u00e3o moravam mais no belo bairro de Urzendniczej Kolonij. Agora, oficiais sovi\u00e9ticos moravam l\u00e1, no lugar deles.<\/p>\n<p>A primavera de 1941 parecia feliz para Miriam, at\u00e9 a chegada de 22 de junho. Naquela data, a pequena Miriam acordou no meio da noite com o alarido de uma explos\u00e3o. A Alemanha tinha invadido a Pol\u00f4nia ocupada pelos sovi\u00e9ticos e todos estavam em p\u00e2nico, incluindo os oficiais sovi\u00e9ticos, que come\u00e7aram a fugir de volta para a R\u00fassia com suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Miriam n\u00e3o tinha para onde ir. Os alem\u00e3es lan\u00e7aram bombas incendi\u00e1rias por todo o bairro e tudo estava em chamas. As pessoas fugiam de suas casas e ajuntavam-se perto da margem do Rio Styr para tentar escapar do fogo, mas os avi\u00f5es alem\u00e3es voavam sobre elas e as metralhavam.<\/p>\n<p>Eles conseguiram fugir para uma aldeia que n\u00e3o tinha sido bombardeada, mas os alem\u00e3es chegaram l\u00e1 tr\u00eas dias depois. Ent\u00e3o foram for\u00e7ados a retornar a Luck, juntamente com uma multid\u00e3o de refugiados, somente para descobrirem que sua casa tinha virado apenas escombros. Decidiram assim mudar-se para a casa da av\u00f3 de Miriam, dividindo-a com outros parentes.<\/p>\n<p>Os nazistas logo come\u00e7aram a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus, auxiliados por mil\u00edcias ucranianas formadas por volunt\u00e1rios. Todos os homens da cidade foram convocados para o trabalho for\u00e7ado no primeiro domingo da ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Cerca de dois\u00a0mil judeus se apresentaram \u2013 e nunca mais foram vistos. Na quinta-feira seguinte, um novo decreto convocava todos os homens judeus, e assim o pai e o tio de Miriam foram para o local designado onde supostamente seriam levados para o trabalho, juntamente com outros tr\u00eas\u00a0mil homens judeus \u2013 os quais tamb\u00e9m nunca mais voltaram. Sua m\u00e3e ficou s\u00f3 com as quatro\u00a0crian\u00e7as: Miriam, Moniek e os dois beb\u00eas g\u00eameos.<\/p>\n<p>Dia ap\u00f3s dia chegavam novos decretos: judeus tinham que usar uma estrela amarela; judeus n\u00e3o podiam andar na cal\u00e7ada; judeus n\u00e3o podiam frequentar lugares p\u00fablicos; judeus tinham que descobrir a cabe\u00e7a quando vissem um soldado alem\u00e3o. Aqueles que n\u00e3o seguissem as ordens seriam executados imediatamente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_453\" aria-describedby=\"caption-attachment-453\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=455\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-453\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/forced-laborers-244x300.png\" alt=\"forced laborers\" width=\"300\" height=\"369\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/forced-laborers-244x300.png 244w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/forced-laborers.png 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-453\" class=\"wp-caption-text\">Judeus indo para o Trabalho For\u00e7ado. (Giz de cera).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aproximadamente\u00a025 mil judeus viviam em Luck antes da Segunda Guerra Mundial. No come\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o nazista, cinco\u00a0mil judeus foram levados pelos alem\u00e3es. Aqueles que ficaram para tr\u00e1s eram principalmente mulheres, crian\u00e7as e idosos.<\/p>\n<p>Miriam escreve em seu livro que, de uma hora para outra, a crian\u00e7a tornou-se adulta, tentando ajudar a m\u00e3e a sustentar a fam\u00edlia de quatro crian\u00e7as. Ela trocava utens\u00edlios da casa por comida, mas as crian\u00e7as estavam sempre com fome. Enquanto isso, novos decretos chegavam para os judeus: eles deveriam entregar quaisquer objetos de valor que ainda possu\u00edssem para o Judenrat, um tipo de conc\u00edlio judaico que tinha sido criado pelos nazistas \u2013 ao qual, segundo Miriam, judeus corretos e honrados jamais se voluntariavam. Muitos ucranianos tiravam vantagem da situa\u00e7\u00e3o e pilhavam as casas dos judeus. A casa da fam\u00edlia de Miriam\u00a0tamb\u00e9m foi pilhada por um ucraniano que fingiu que lhes traria algum alimento.<\/p>\n<p>Os prisioneiros russos tamb\u00e9m sofriam nas m\u00e3os dos nazistas; de fato, foram transformados em um espet\u00e1culo p\u00fablico do qual at\u00e9 mesmo os judeus se compadeciam.<\/p>\n<p>Curiosamente, muitos soldados da Wehrmacht viviam em um pr\u00e9dio ao lado da casa onde a fam\u00edlia de Miriam estava, mas eles n\u00e3o molestaram os judeus. Certa noite, um alem\u00e3o invadiu a casa; e a pequena Miriam e seu primo pularam a janela e fugiram para o pr\u00e9dio dos alem\u00e3es. Embora fossem proibidos de sair de casa \u00e0 noite, os alem\u00e3es n\u00e3o os molestaram, mas entraram na casa e expulsaram o invasor.<\/p>\n<p>No entanto,\u00a0outros alem\u00e3es vieram \u00e0 casa procurando por couro, seguindo a indica\u00e7\u00e3o de um sapateiro polon\u00eas que havia vivido em meio aos judeus, dos quais tirara seu sustento durante muitos anos. Mas agora, ele havia\u00a0tornado-se um espi\u00e3o e insistia que a fam\u00edlia de Miriam tinha couro escondido na casa. Os alem\u00e3es vieram v\u00e1rias vezes. At\u00e9 o forro do teto foi removido na busca, mas nada foi encontrado. Parecia que o sapateiro tinha a expectativa de \u201cherdar\u201d o que pertencia aos judeus, assim como muitos de seus vizinhos poloneses e ucranianos.<\/p>\n<p>Diferentemente dele, uma pastor protestante que vivia na mesma \u00e1rea nunca tentou tirar nada deles. Em vez disso, ele lhes dava alguns dos legumes que cultivava em sua horta. Ele tamb\u00e9m concordou em esconder a m\u00e1quina de costura da tia de Miriam em sua casa, para impedir que fosse confiscada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continuar lendo: <a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=157\">Deporta\u00e7\u00e3o, Perda e Esconderijo<\/a><a title=\"Miriam Necrycz &gt; Deportation, Loss and Hiding\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/esposa-miriam-necrycz\/miriam-necrycz-deportacao-perda-esconderijo\/\">.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miriam Nekrycz registrou seu testemunho como sobrevivente do Holocausto em seu livro \u201cRelato de uma Vida\u201d, publicado no Brasil em 1995. O livro inicia-se com a viagem de Miriam e Ben Abraham para Pol\u00f4nia e Ucr\u00e2nia, depois da queda da cortina de ferro. 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