{"id":161,"date":"2015-04-01T02:33:36","date_gmt":"2015-04-01T02:33:36","guid":{"rendered":"http:\/\/benabraham.org\/en\/?page_id=161"},"modified":"2016-07-24T17:17:55","modified_gmt":"2016-07-24T17:17:55","slug":"retorno-as-origens-judaicas","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/miriam-nekrycz\/retorno-as-origens-judaicas\/","title":{"rendered":"Miriam Nekrycz &#8211; Retorno \u00e0s Origens Judaicas"},"content":{"rendered":"<p>Na primavera de 1945, Stefcia lhe disse sobre duas mo\u00e7as judias que ela havia conhecido no moinho; elas queriam v\u00ea-la o mais brevemente poss\u00edvel. Um dia, elas vieram: outra sobrevivente judia havia lhes contado sobre a presen\u00e7a de Miriam na casa de Stefcia e elas queriam conhec\u00ea-la. Conversaram com ela como quem conversa com uma crian\u00e7a, coisa que havia muito tempo ningu\u00e9m fazia, e pareciam preocupadas com seu futuro.<\/p>\n<p>Esse encontro despertou na pequena Miriam um desejo de procurar por parentes judeus fora da Europa. Ela at\u00e9 se lembrou do papelzinho costurado no casaco, para lembr\u00e1-la do Brasil.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as \u2013 Judith e Rosa \u2013 vieram \u00e0 casa de Stefcia v\u00e1rias vezes, tentando convencer Miriam a passar alguns dias com elas. Miriam, a princ\u00edpio n\u00e3o queria ir, mas Stefcia a encorajou tanto que ela acabou indo \u2013 somente para passar alguns dias.<\/p>\n<p>Havia seis judeus na casa: as duas mo\u00e7as, a m\u00e3e de uma delas, o irm\u00e3o da outra, e um pai com seu filho. Todos a tratavam carinhosamente, n\u00e3o se importando com o fato de que ela falava polon\u00eas, nem com seus h\u00e1bitos de cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Mas pouco a pouco ela come\u00e7ou a se lembrar do i\u00eddiche; ela tamb\u00e9m come\u00e7ou a chamar Dona Babcia de \u201cvov\u00f3\u201d, sentindo-se parte da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Muitos judeus sobreviventes tinham formado uma comunidade naquele lugar, e eles tinham decidido celebrar a primeira P\u00e1scoa depois da guerra. Todos os membros da comunidade tomaram parte nos preparativos, falando sobre a liberta\u00e7\u00e3o do povo judeu da escravid\u00e3o no Egito e sobre suas fam\u00edlias nos anos anteriores \u00e0 guerra. No \u00faltimo dia do feriado, as ora\u00e7\u00f5es em hebraico fizeram-na sentir que aquele povo era o seu povo, a quem ela na verdade pertencia. Como a \u00fanica sobrevivente na fam\u00edlia, ela era a \u00fanica que poderia preservar a mem\u00f3ria de seus entes queridos. De repente, ela n\u00e3o tinha mais medo de ser judia. Nos pr\u00f3ximos dias, ela se esfor\u00e7ou para falar i\u00eddiche, para grande alegria de sua nova fam\u00edlia: \u201cDos kind ret iidish\u201d \u2013 \u201cA crian\u00e7a fala i\u00eddiche\u201d -, diziam uns aos outros.<\/p>\n<p>Durante todas aquelas semanas ela visitou Stefcia e o beb\u00ea Piotrus apenas algumas vezes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_498\" aria-describedby=\"caption-attachment-498\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/franklin-d-roosevelt\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-498\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/roosevelt-199x300.jpg\" alt=\"roosevelt\" width=\"350\" height=\"527\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/roosevelt-199x300.jpg 199w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/roosevelt-679x1024.jpg 679w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/roosevelt.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-498\" class=\"wp-caption-text\">Franklin D. Roosevelt. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dia, as bandeiras vermelhas foram hasteadas a meio-pau pela morte do Presidente Roosevelt \u2013 os Estados Unidos ainda eram aliados da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Logo depois, em 8 de maio de 1945, a Alemanha Nazista capitulou. Todos festejavam a derrota, tanto os russos quanto os nacionalistas ucranianos que os haviam combatido \u2013 todos, exceto os judeus.<\/p>\n<p>Todos os judeus naquela comunidade estavam ansiosos por deixar a terra que havia sido t\u00e3o hotil a eles, e come\u00e7ar uma vida nova em outro lugar. Certo\u00a0dia, Rosa chegou em casa dizendo que tinham conseguido um vag\u00e3o de carga e que aquela era uma oportunidade \u00fanica; eles teriam quer partir o mais depressa poss\u00edvel, n\u00e3o havia tempo para dizer adeus a Stefcia e a Piotrus.<\/p>\n<p>Por duas semanas eles viajaram rumo a Lublin em um vag\u00e3o de carga aberto, expostos ao sol do dia e ao frio da noite. Com eles, Babcia levou sua insepar\u00e1vel vaca, o \u00fanico bem que tinha conseguido salvar dos tempos de antes da guerra. Eles desejavam chegar a Lublin, na Pol\u00f4nia central, mas no caminho ouviram sobre o recente massacre de 150 judeus sobreviventes em Kielce, em um pogrom, e o lugar ficava pr\u00f3ximo a Lublin. Ent\u00e3o a \u201cfam\u00edlia\u201d decidiu continuar viagem prosseguindo at\u00e9 Lodz, onde havia uma comunidade maior, com judeus vindos da Pol\u00f4nia e de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Depois que Judith e Rosa conseguiram convencer Babcia a vender a vaca, entraram na cidade, que era uma grande capital para eles. Em Lodz encontraram uma comunidade judaica bem organizada: eles tinham uma sinagoga e um escrit\u00f3rio onde as pessoas podiam cadastrar-se para encontrar parentes no exterior.<\/p>\n<p>Elas se mudaram para um apartamento que pertencia a uma fam\u00edlia judia antes da guerra, o qual compartilhavam com outra fam\u00edlia judia. De qualquer forma, aquele apartamento era o melhor lugar do mundo.<\/p>\n<p>Assim que chegaram, registraram-se na Kehil\u00e1 (escrit\u00f3rio central da comunidade). Miriam disse aos atendentes que tinha dois tios com o mesmo sobrenome vivendo na Palestina, e que tamb\u00e9m tinha parentes no Brasil e nos Estados Unidos, mas n\u00e3o sabia seus nomes ou sobrenomes. Os atendentes anotaram tudo o que ela disse e prometeram que tentariam encontrar seus parentes e a avisariam caso tivessem not\u00edcias.<\/p>\n<p>Naquele escrit\u00f3rio, todos procuravam algu\u00e9m; as paredes estavam cobertas de bilhetes, placas e papeis com nomes escritos. Muitos gastavam horas e horas lendo todas aquelas notas; \u00e0s vezes se ouvia uma explos\u00e3o de gritos e choro \u2013 algu\u00e9m tinha encontrado algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Miriam enviou v\u00e1rias cartas a Stefcia e Piotrus, mas n\u00e3o recebeu resposta. Mas tarde soube que Stefcia havia voltado para a casa de seus pais, de modo que perderam contato.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, pela primeira vez ela ouviu sobre o que de fato acontecera aos judeus que haviam permanecido nos guetos ou tinham perecido nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Ela nunca tinha ouvido nada a respeito de c\u00e2maras de g\u00e1s ou cremat\u00f3rios e essa foi uma revela\u00e7\u00e3o que muito a abalou. O choque foi grande, mas Miriam\u00a0foi consolada por Babcia, que lhe disse que, apesar de ter perdido quase todos os membros de sua fam\u00edlia e ser muito velha para construir qualquer coisa, ela ainda queria viver.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois disso, a filha de Babcia, Rosa, casou-se com um jovem soldado judeu que havia combatido no ex\u00e9rcito vermelho. Seu nome era Nissan e ele tamb\u00e9m tinha perdido sua casa e toda a sua fam\u00edlia, exceto por um irm\u00e3o. Ele trouxe nova vida a Babcia, e ela n\u00e3o era mais triste e amarga.<\/p>\n<p>Lodz era a maior cidade industrial da Pol\u00f4nia, com pr\u00e9dios acinzentados devido \u00e0 fuma\u00e7a vinda das chamin\u00e9s. Mas, embora a maior parte da cidade tivesse uma apar\u00eancia suja, nada parecia mais assustador do que o velho distrito onde o gueto havia sido selado, com suas ruas cheias dos restos da pobreza e desola\u00e7\u00e3o dos anos anteriores.<\/p>\n<figure id=\"attachment_373\" aria-describedby=\"caption-attachment-373\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=708\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-373\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/lodz-ghetto-model.png\" alt=\"lodz ghetto model\" width=\"400\" height=\"325\" srcset=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/lodz-ghetto-model.png 662w, http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/lodz-ghetto-model-300x244.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-373\" class=\"wp-caption-text\">O Gueto de Lodz. (Maquete).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma escola judaica foi aberta em 1945. A maioria dos professores e alunos era constitu\u00edda de sobreviventes de campos de concentra\u00e7\u00e3o e florestas e daqueles que tinham sido escondidos em casas de arianos. Crian\u00e7as de toda a Europa Oriental, Pol\u00f4nia, Ucr\u00e2nia e Litu\u00e2nia, cada uma falando a sua l\u00edngua, tinham somente um denominador comum: o i\u00eddiche. Pela primeira vez ela ouviu sobre Eretz Israel, a sua p\u00e1tria materna, onde um dia eles seriam livres das persegui\u00e7\u00f5es e da discrimina\u00e7\u00e3o. A escola era um lugar onde os estudantes\u00a0sentiam-se como irm\u00e3os e irm\u00e3s, ansiando por um futuro melhor.<\/p>\n<p>Na escola, as crian\u00e7as cantavam m\u00fasicas compostas pelos partisanos nos guetos e nas florestas; declamavam poesias escritas por Katzenelson, o poeta judeu morto em Auschwitz, o qual havia escrito que nunca mais crian\u00e7as judaicas cantariam na Pol\u00f4nia. Muitos adultos vinham \u00e0 escola para ver as crian\u00e7as cantarem e declamarem.<\/p>\n<p>No inverno, a \u201cfam\u00edlia\u201d de Miriam decidiu viajar para Berlim. De fato, todos os judeus ansiavam por deixar a Pol\u00f4nia antes que as fronteiras fossem fechadas pelos sovi\u00e9ticos, mas isso s\u00f3 era poss\u00edvel por vias clandestinas. Havia gangues que organizavam o transporte de grupos. Certa noite, quando estava muito frio, chegou a vez de eles irem para Berlim; seria de caminh\u00e3o e eles deveriam chegar \u00e0 capital alem\u00e3 na manh\u00e3 seguinte. Contudo, poucas horas depois de partirem, descobriram que os motoristas haviam abandonado todos os passageiros numa estrada cheia de neve, sem saber exatamente onde estavam.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Rosa e Judith decidiram tentar arrumar uma carona e chegar a Berlim de qualquer jeito. A pequena Miriam, Nissan e Babcia ficaram para tr\u00e1s. Depois de alguns dias decidiram ir a p\u00e9 at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de trem. A viagem demorou dois dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil embarcar em um trem rumo a Berlim. As autoridades sovi\u00e9ticas interrogavam cada pessoa antes de permitir seu embarque. Nissan quase foi impedido de tomar o trem por ser um ex-soldado, mas com coragem disse aos russos que ele tinha se alistado voluntariamente no ex\u00e9rcito vermelho para combater os nazistas e defender o povo russo, lutando por ele com todas as suas for\u00e7as. Em vez de manda-lo para a Sib\u00e9ria, como era de se esperar, os oficiais permitiram que os tr\u00eas prosseguissem juntos para Berlim.<\/p>\n<p>Dentro de poucas horas chegaram \u00e0 zona sovi\u00e9tica de Berlim. De l\u00e1 foram para a Gemainde \u2013 o escrit\u00f3rio da comunidade judaica \u2013 onde encontraram Rosa e Judith. O local era t\u00e3o ca\u00f3tico que se parecia mais com um campo de concentra\u00e7\u00e3o do que com um escrit\u00f3rio. N\u00e3o ficaram muito tempo l\u00e1, pois seu objetivo era chegar \u00e0 zona norteamericana da cidade, antes que os russos fechassem a passagem entre os dois lados.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns dias de burocracia, finalmente conseguiram cruzar para um campo de refugiados mantido pela UNRRA no lado norteamericanos de Berlim, no bairro de Schlachtensee. O campo era limpo e bem organizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continuar lendo: <a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=364\">Refugiada na Alemanha.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na primavera de 1945, Stefcia lhe disse sobre duas mo\u00e7as judias que ela havia conhecido no moinho; elas queriam v\u00ea-la o mais brevemente poss\u00edvel. Um dia, elas vieram: outra sobrevivente judia havia lhes contado sobre a presen\u00e7a de Miriam na casa de Stefcia e elas queriam conhec\u00ea-la. 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