{"id":14,"date":"2015-03-29T00:24:40","date_gmt":"2015-03-29T00:24:40","guid":{"rendered":"http:\/\/benabraham.org\/en\/?page_id=14"},"modified":"2015-10-12T21:07:02","modified_gmt":"2015-10-12T21:07:02","slug":"no-gueto-de-lodz","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/benabraham.org\/pt-br\/no-gueto-de-lodz\/","title":{"rendered":"No Gueto de Lodz"},"content":{"rendered":"<p>Henry Nekrycz (Ben Abraham) nasceu em Lodz em 1924. Ele n\u00e3o foi criado como um judeu ortodoxo, embora seu av\u00f4 fosse o diretor de uma das maiores sinagogas da cidade. Seus pais n\u00e3o eram estritamente ortodoxos, ent\u00e3o diferentemente de seu primo Moniek, ele n\u00e3o usava \u201ckaftan com tzitzit\u201d ou \u201cpejelech\u201d. Sua fam\u00edlia era propriet\u00e1ria do pr\u00e9dio onde moravam, em um apartamento com dois quartos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_72\" aria-describedby=\"caption-attachment-72\" style=\"width: 428px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=282\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-72\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_gueto-1024x768.jpg\" alt=\"Lodz_gueto\" width=\"428\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_gueto-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_gueto-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-72\" class=\"wp-caption-text\">Rua no Gueto de Lodz. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ele tinha 14 anos quando a guerra alcan\u00e7ou sua cidade natal. Em 1\u00ba de setembro de 1939, os alem\u00e3es bombardearam um pr\u00e9dio pr\u00f3ximo ao pr\u00e9dio em que a fam\u00edlia morava. Em 6 de setembro,\u00a0Ben Abraham\u00a0viu o p\u00e2nico tomar conta de Lodz, pois todos os homens foram convocados para Vars\u00f3via e come\u00e7aram a deixar a cidade. Ele tentou acompanhar o resto dos homens de sua fam\u00edlia rumo \u00e0 capital. Ao longo da estrada, podia ver multid\u00f5es de pessoas desesperadas tentando chegar \u00e0 capital, carros deixados para tr\u00e1s sem combust\u00edvel,\u00a0doentes simplesmente abandonados porque n\u00e3o podiam mais continuar, e os mortos que ca\u00edam pelo caminho. Ele desistiu de ir para Vars\u00f3via e voltou para Lodz, onde somente mulheres e crian\u00e7as eram vistas nas ruas.<\/p>\n<p>Ainda antes da queda de Vars\u00f3via, assim que os alem\u00e3es chegaram a Lodz, Ben Abraham\u00a0percebeu que os judeus enfrentavam severa persegui\u00e7\u00e3o. Eles eram pegos nas ruas e enviados para trabalhos for\u00e7ados. Os l\u00edderes judeus come\u00e7aram a desaparecer, assim como os artistas, os escritores e os intelectuais. Os poloneses de origem alem\u00e3 invadiam as casas dos judeus, saqueavam seus bens e expulsavam seus moradores.<\/p>\n<p>Em 26 de setembro, Vars\u00f3via caiu para a Alemanha e os poloneses, apesar de serem inimigos dos alem\u00e3es, uniam-se a estes na persegui\u00e7\u00e3o contra os judeus. Algum tempo depois, certo dia seu pai chegou em casa ferido. Ele tinha sido espancado por um grupo de alem\u00e3es que estavam morando na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em outubro, ele ouviu os primeiros rumores da cria\u00e7\u00e3o de um gueto. Os judeus seriam transferidos para o bairro mais sujo de Lodz, Baluty, de onde a popula\u00e7\u00e3o polonesa seria deportada para a Pol\u00f4nia central ocupada. Enquanto a persegui\u00e7\u00e3o se intensificava, ele testemunhou as leis de Nuremberg sendo postas em pr\u00e1tica: os judeus eram proibidos de guardar os seus dias santos e as sinagogas eram queimadas.<\/p>\n<p>Em 15 de outubro, a fam\u00edlia de Ben Abraham foi expulsa de seu lar e seus bens foram confiscados pela Gestapo. Eles foram deportados para o gueto, de acordo com o plano alem\u00e3o de completar a evacua\u00e7\u00e3o de todos os judeus em tr\u00eas\u00a0meses. Mas um dia, v\u00e1rios judeus foram executados em pra\u00e7a p\u00fablica, ent\u00e3o, no dia seguinte, todos os demais judeus fugiram para o gueto.<\/p>\n<p>Quando o inverno chegou, ele, seus pais, seu av\u00f4 e seu tio estavam vivendo no gueto superlotado. O resto da fam\u00edlia havia fugido para outra cidade. Eles n\u00e3o tinham madeira, e a pouca \u00e1gua que tinham ficava congelada dentro do balde.<\/p>\n<p>Em 1\u00ba de maio de 1940, o gueto foi selado. Como ele n\u00e3o podia sair do gueto, conseguia ver o bonde que cruzava Lodz por detr\u00e1s de uma cerca de arame farpado. Havia uma pontilh\u00e3o que passava por cima daquela rua, ligando as duas partes do gueto. Muitas vezes, ele viu os alem\u00e3es atirando nas pessoas que andavam sobre os pontilh\u00f5es, apenas para praticar tiro ao alvo. Ele tamb\u00e9m via os idosos e os doentes que tinham enorme dificuldade para subir todos aqueles degraus.<\/p>\n<p>Lodz foi incorporada ao Reich e seu nome passou a ser \u201cLitzmannstadt\u201d, em homenagem ao general alem\u00e3o que havia conquistado a cidade na primeira guerra mundial.<\/p>\n<p>Como a fome aumentava no gueto, ele conseguiu sair do gueto atrav\u00e9s de um buraco na cerca para procurar por um alem\u00e3o que devia algum dinheiro ao seu av\u00f4. Ele saiu do gueto mais algumas vezes at\u00e9 que quase foi pego e seus pais n\u00e3o o deixaram mais sair.<\/p>\n<figure id=\"attachment_74\" aria-describedby=\"caption-attachment-74\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a title=\"Women and Children by a Fence in the Lodz Ghetto\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=291\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-74\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/Mulheres-na-cerca-1024x777.jpg\" alt=\"Mulheres na cerca\" width=\"400\" height=\"304\" srcset=\"https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Mulheres-na-cerca-1024x777.jpg 1024w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Mulheres-na-cerca-300x228.jpg 300w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Mulheres-na-cerca.jpg 1813w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-74\" class=\"wp-caption-text\">Mulher e crian\u00e7as perto de uma cerca no Gueto de Lodz. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>No ver\u00e3o, come\u00e7aram a funcionar no gueto as primeiras escolas, e Ben Abraham\u00a0foi matriculado numa escola para serralheiros. Ele n\u00e3o aprendeu o of\u00edcio, mas suas m\u00e3os tornaram-se muito resistentes e capazes de realizar qualquer trabalho manual. Por essa mesma \u00e9poca, ele come\u00e7ou uma pequena horta de batatas, rabanetes, alface e salsinha. Tamb\u00e9m plantava cenoura, beterraba e nabo.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca,\u00a0come\u00e7ou a surgir uma nova aristocracia no gueto, o que provocou uma revolta entre os outros judeus. A pol\u00edcia judia foi refor\u00e7ada depois do incidente e os \u201cSondercomando\u201d, que era uma esp\u00e9cie de pelot\u00e3o especial, fazia buscas de casa em casa tentando encontrar qualquer coisa de valor que pudessem confiscar. A \u201cKrypo\u201d, pol\u00edcia especial alem\u00e3, tamb\u00e9m procurava os pertences dos judeus e torturava aqueles que acreditava estarem escondendo alguma coisa. Uma nova moeda foi criada para o gueto, o \u201cRumki\u201d, e os judeus foram proibidos de possuir qualquer dinheiro alem\u00e3o, sob pena de morte. Em 1940, as primeiras f\u00e1bricas de uniformes para soldados foram instaladas no gueto mas o protecionismo presidia a escolha dos trabalhadores.<\/p>\n<p>No inverno, em meio \u00e0 mis\u00e9ria e fome reinantes, o gueto recebia batatas e legumes em troca de ouro, prata e d\u00f3lares. Rumkowski, o presidente do gueto, n\u00e3o quis distribuir tudo imediatamente, mas o frio era tanto que as batatas ficaram congeladas e n\u00e3o podiam mais ser comidas. A ra\u00e7\u00e3o que uma pessoa podia receber era um pouco de \u201clatques\u201d (um tipo de bolo feito de batata congelada), 200 gramas de p\u00e3o e dez gramas de a\u00e7\u00facar. Uma vez por m\u00eas eles tamb\u00e9m recebiam 100 gramas de carne de cavalo. Enquanto isso, o gueto se tornava cada vez mais sujo e infestado de piolhos. A popula\u00e7\u00e3o do gueto continuava a aumentar, com a chegada de judeus deportados da Alemanha e da Tchecoslov\u00e1quia.\u00a0Nessa altura, ele finalmente arrumou um emprego como servente em uma marcenaria. Como apontado acima, o\u00a0gueto tinha sua pr\u00f3pria moeda, cujo nome &#8211; <em>rumki<\/em> &#8211; foi escolhido em fun\u00e7\u00e3o do nome do presidente do gueto, o senhor Rumkowski. Ben Abraham passou ent\u00e3o a receber um sal\u00e1rio de dois <em>Rumkis<\/em> por dia. Com esse dinheiro, conseguia comprar as ra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<figure id=\"attachment_81\" aria-describedby=\"caption-attachment-81\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a title=\"Children Eating Soup in the Lodz Ghetto\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=293\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-81\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/IMG_3591-1024x752.jpg\" alt=\"IMG_3591\" width=\"500\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/IMG_3591-1024x752.jpg 1024w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/IMG_3591-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-81\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as tomando sopa no Gueto de Lodz. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na primavera seguinte, um de seus tios tornou-se encarregado de organizar uma usina metal\u00fargica, assim ele conseguiu um emprego no setor onde as caldeiras de \u00e1gua era feitas. Por\u00e9m, logo ficou intoxicado com o \u00e1cido clor\u00eddrico que usava para branquear as caldeiras, ent\u00e3o arrumou outro emprego, desse vez como ajudante de soldador. No entanto, esse novo trabalho tamb\u00e9m n\u00e3o funcionou, pois em pouco tempo os olhos dele foram afetados pelas fa\u00edscas da solda. Ficou apavorado, pensando ter ficado cego, e depois disso disse para o gerente da f\u00e1brica que queria tornar-se um mec\u00e2nico. Ele foi transferido para uma outra oficina, onde o gerente logo descobriu que Ben Abraham\u00a0n\u00e3o sabia nada sobre aquele tipo de trabalho, mas mesmo assim permitiu que ele ficasse. N\u00e3o fosse pela fome, ele poderia dizer que era feliz de ter um emprego com o qual podia comprar ra\u00e7\u00f5es para sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em 22 de junho, chegaram not\u00edcias de que a R\u00fassia havia entrado na guerra, o que trouxe aos prisioneiros do gueto uma esperan\u00e7a de que ela acabaria logo. Mas os alem\u00e3es continuavam avan\u00e7ado e as esperan\u00e7as se esvaneciam. Nessa \u00e9poca, novas f\u00e1bricas foram instaladas no gueto e seus pais arrumaram empregos. Seu pai foi trabalhar na constru\u00e7\u00e3o de uma estrada e sua m\u00e3e arrumou um emprego de costureira. Por\u00e9m,\u00a0como os pre\u00e7os das ra\u00e7\u00f5es sempre subiam, o fato de que a fam\u00edlia estava ganhando mais dinheiro n\u00e3o ajudava muito.<\/p>\n<p>No inverno de 1942, seu pai conseguiu um emprego melhor em uma marcenaria, onde n\u00e3o mais sentia frio. Mas, um dia, ele chegou em casa muito triste, porque dois judeus haviam sido enforcados em uma pra\u00e7a do gueto. Seu crime foi ter sa\u00eddo do gueto para comprar batatas.<\/p>\n<p>Na primavera de 1942, ele foi transferido para uma f\u00e1brica de uniformes com 500 m\u00e1quinas de costura, onde aprendeu a consert\u00e1-las. Por essa \u00e9poca, testemunhou as primeiras deporta\u00e7\u00f5es de doentes para fora do gueto. Eles eram tirados de seus leitos no hospital e jogados em caminh\u00f5es com crueldade. Ademais, ao mesmo tempo em que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o sofria com a fome e a pobreza, os policiais, altos funcion\u00e1rios e gerentes de f\u00e1bricas tinham comida e o direito de alugar os lotes ainda dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia foi ent\u00e3o expulsa da casa em que estavam vivendo para dar lugar a um \u201cSondercomando\u201d. Eles se mudaram para uma moradia bem menor, que dividiam com outra fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em setembro de 1942, ele viu Rumkowski pronunciar um discurso \u00e0 multid\u00e3o. Dizia que os alem\u00e3es estavam exigindo vinte\u00a0mil judeus para serem deportados, ent\u00e3o seria melhor se os velhos e os doentes se apresentassem voluntariamente. As crian\u00e7as tamb\u00e9m deveriam ser entregues por suas m\u00e3es, dizia ele, pois teriam melhores chances de sobreviver fora do gueto.<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m se apresentou e as m\u00e3es atacavam os policiais alem\u00e3es em busca de seus filhos com \u00e1gua quente, as tropas de assalto da SS decretaram estado de s\u00edtio, de modo que ningu\u00e9m podia sair de casa. Os soldados vinham e cercavam um quarteir\u00e3o ap\u00f3s o outro, exigindo que todos sa\u00edssem para a rua. Os velhos, os doentes e as crian\u00e7as eram levados em caminh\u00f5es.<\/p>\n<figure id=\"attachment_73\" aria-describedby=\"caption-attachment-73\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a title=\"Youth Running with a Torah\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=295\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-73\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_jovem-com-torah-300x223.jpg\" alt=\"Lodz_jovem com torah\" width=\"400\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_jovem-com-torah-300x223.jpg 300w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_jovem-com-torah-1024x760.jpg 1024w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Lodz_jovem-com-torah.jpg 1933w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-73\" class=\"wp-caption-text\">Jovem correndo com a Tor\u00e1. Gueto de Lodz. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Seu pai ficou ent\u00e3o muito doente, morrendo poucos dias depois, de modo que ele ficou somente com a m\u00e3e. No dia seguinte, como ouviram que a SS cercaria o quarteir\u00e3o onde viviam, decidiram fugir para um quarteir\u00e3o mais distante, e encontraram uma mulher que permitiu que ficassem com ela. Ela havia perdido todos os membros de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A cota de vinte\u00a0mil judeus foi completada naquela semana. Os judeus deportados foram assassinados em Chelmno.<\/p>\n<p>A despeito do fato de que havia menos pessoas no gueto, os alem\u00e3es o demoliam pouco a pouco, com o pretexto de que estavam construindo uma estrada para Moscou. Ele e a m\u00e3e receberam ordens para se mudar do quarto que ocupavam. Sua m\u00e3e encontrou um quarto menor para onde conseguiram se mudar depois de pagar 200 marcos e um p\u00e3o de dois\u00a0quilos. A m\u00e3e conseguiu esse dinheiro vendendo sua cota de a\u00e7\u00facar e economizando o p\u00e3o e suas pr\u00f3prias ra\u00e7\u00f5es por duas semanas. As condi\u00e7\u00f5es no novo c\u00f4modo eram terr\u00edveis, mas apesar disso ele reuniu suas for\u00e7as para trabalhar todos os dias, consertando m\u00e1quinas de costura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Ben Abraham adoeceu: contraiu febre tifoide e recuperou-se ap\u00f3s 21 dias, devido em parte \u00e0 ajuda de uma m\u00e9dica judia que vivia no mesmo pr\u00e9dio. Quando ele voltou para a f\u00e1brica, descobriu que tinha sido dado como morto e o gerente n\u00e3o queria admiti-lo de volta, porque seu nome n\u00e3o estava mais na lista. Depois de muita discuss\u00e3o, sua situa\u00e7\u00e3o foi resolvida e ele p\u00f4de voltar a trabalhar. Foi transferido para duas outras f\u00e1bricas, e na segunda tinha de passar horas deitado no ch\u00e3o a fim de construir suportes para as m\u00e1quinas. Como j\u00e1 era inverno, o ch\u00e3o era muito frio e ele sentiu que logo ficaria doente, o que n\u00e3o tardou a acontecer: novamente caiu enfermo, dessa vez com pleurite.<\/p>\n<p>Depois de ser aconselhada pela m\u00e9dica judia, sua m\u00e3e conseguiu vender uma estola de raposa que havia conseguido esconder dos alem\u00e3es e comprou cinco\u00a0inje\u00e7\u00f5es de c\u00e1lcio. Tamb\u00e9m encontrou um enfermeiro para aplicar as inje\u00e7\u00f5es nele. Durante esse tempo todo, o gerente da f\u00e1brica onde trabalhava lhe enviava sua sopa di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, voltou a trabalhar. O gerente n\u00e3o havia reportado a doen\u00e7a aos alem\u00e3es, embora Ben Abraham\u00a0tivesse estado ausente por cinco\u00a0meses, porque os alem\u00e3es estavam deportando todos os doentes. Durante esse tempo, tamb\u00e9m recebeu seu sal\u00e1rio normalmente.<\/p>\n<p>Continuou a trabalhar no conserto de m\u00e1quinas de costura, tornando-se reconhecido por sua habilidade. Como essa fun\u00e7\u00e3o era crucial para a sobreviv\u00eancia do gueto como sendo economicamente \u00fatil para os alem\u00e3es, essa habilidade lhe trouxe maior <em>status<\/em> na f\u00e1brica. Seu sal\u00e1rio aumentou e ele agora conseguia ra\u00e7\u00f5es melhores para si pr\u00f3prio e para sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, enquanto os russos avan\u00e7avam e os aliados chegavam \u00e0 Normandia, os alem\u00e3es ordenavam que toda a popula\u00e7\u00e3o do gueto fosse deportada para a Alemanha. O comiss\u00e1rio do gueto lhe disse que o \u201cFuhrer\u201d precisava deles para produzir uniformes l\u00e1. A essa altura, aqueles que ainda estavam no gueto nada sabiam sobre Treblinka, Majdanek ou outros campos de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Ele e a m\u00e3e foram convocados a se apresentar para a deporta\u00e7\u00e3o, mas decidiram se esconder juntos at\u00e9 que os russos chegassem. O quarteir\u00e3o onde viviam foi cercado por oficiais da SS pesadamente armados, que vasculharam o apartamento, no entanto, n\u00e3o conseguiram descobrir seu esconderijo.<\/p>\n<p>Como os policiais continuavam a fazer buscas em quarteir\u00e3o ap\u00f3s quarteir\u00e3o com o intuito de deportar todos os judeus, ele e a m\u00e3e decidiram ir para a f\u00e1brica, onde prepararam um esconderijo para o caso de a SS aparecer. Outros empregados da f\u00e1brica tamb\u00e9m estavam escondidos ali com suas fam\u00edlias, 26 pessoas ao todo. Por\u00e9m, certo dia, a SS chegou e enganou o gerente da f\u00e1brica, o qual disse a todos que somente precisariam se apresentar e seriam liberados em seguida. Contudo, era uma armadilha: todos foram colocados em bondes e levados para uma via f\u00e9rrea, onde foram colocados em vag\u00f5es de carga trancados pelo lado de fora. Os oficiais da SS disseram a eles que iriam \u00e0\u00a0Alemanha para trabalhar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_78\" aria-describedby=\"caption-attachment-78\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a title=\"Entrance to Auschwitz Concentration Camp\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=297\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-78 size-large\" src=\"http:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Auchwitz_atual-1024x713.jpg\" alt=\"Auchwitz_atual\" width=\"620\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Auchwitz_atual-1024x713.jpg 1024w, https:\/\/benabraham.org\/en\/directory\/uploads\/2015\/04\/Auchwitz_atual-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-78\" class=\"wp-caption-text\">Entrada do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. (Pintura a \u00f3leo).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois de algum tempo, chegaram ao que parecia ser uma esta\u00e7\u00e3o de trem. Ben Abraham\u00a0podia ver arame farpado e muitos soldados carregando armas pesadas, e homens carecas usando uniformes listrados.<br \/>\nEles haviam acabado de chegar a Auschwitz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continue Lendo: <a title=\"Auschwitz and Labor Camps\" href=\"http:\/\/benabraham.org\/pt-br\/?p=19\">Duas Semanas em Auschwitz.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henry Nekrycz (Ben Abraham) nasceu em Lodz em 1924. Ele n\u00e3o foi criado como um judeu ortodoxo, embora seu av\u00f4 fosse o diretor de uma das maiores sinagogas da cidade. Seus pais n\u00e3o eram estritamente ortodoxos, ent\u00e3o diferentemente de seu primo Moniek, ele n\u00e3o usava \u201ckaftan com tzitzit\u201d ou \u201cpejelech\u201d. 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